
Quem jogava no celular antes da era Android provavelmente vai lembrar de Heroes Lore, uma das séries de RPG mais marcantes da época dos jogos Java. Agora, três títulos da franquia estão ganhando uma nova vida por meio de projetos que adaptam os games para sistemas modernos, incluindo Android, Windows, Linux, Steam Deck e até Nintendo Switch.
Os projetos estão sendo desenvolvidos por David Kalil Braga e incluem Heroes Lore: Wind of Soltia, Heroes Lore 2: The Knight of Frozen Sea e Heroes Lore: Zero.
Mais do que simplesmente rodar os antigos arquivos JAR dentro de um emulador J2ME, os projetos utilizam um motor desenvolvido em C++17 com SDL2 para executar a lógica original dos jogos em plataformas atuais.
Heroes Lore ganha nova vida no Android
O primeiro projeto é baseado em Heroes Lore: Wind of Soltia, lançado originalmente para celulares Java. Segundo a documentação disponível no GitHub, o port utiliza o bytecode original do jogo como base e implementa em C++ partes do ambiente J2ME necessárias para seu funcionamento.
Na prática, a ideia é evitar a necessidade de utilizar um emulador Java tradicional. O motor reproduz elementos como MIDP 2.0, sistema gráfico, armazenamento RMS e outras funções originalmente utilizadas pelos celulares da época.

O resultado é uma versão adaptada para dispositivos modernos e que pode ser distribuída como um APK próprio para Android.
O projeto também adiciona diversas melhorias que obviamente não existiam na versão original, como suporte a controles de Xbox, PlayStation e outros gamepads Bluetooth ou USB, comandos touchscreen, proporção de tela ajustável e suporte a widescreen.
Wind of Soltia tem widescreen, português e cloud save

Entre os recursos adicionados a Heroes Lore: Wind of Soltia está um modo widescreen em 16:9 que aumenta a área visível do mapa em vez de simplesmente esticar a imagem original.
Quem quiser manter a experiência clássica também pode utilizar a proporção original 3:4, com molduras laterais.
O port permite ainda alternar entre 15 FPS, reproduzindo a cadência dos antigos celulares Java, e um modo de 30 FPS com movimentação mais fluida.
Há também suporte a quatro idiomas, incluindo português brasileiro, inglês, italiano e espanhol, além de sistema de save e sincronização pela nuvem através do Google Drive.
Outro detalhe interessante é que o jogador pode começar a partida no computador e continuar posteriormente no celular ou em outra plataforma compatível utilizando o mesmo progresso.
Projeto: Heroes Lore: Wind of Soltia no GitHub.
Heroes Lore 2 também recebeu port para Android

O trabalho não ficou limitado ao primeiro jogo. Heroes Lore 2: The Knight of Frozen Sea também recebeu um projeto semelhante.
A versão utiliza novamente C++17 e SDL2 para executar a lógica baseada no jogo original e oferece versões para Android, Windows, Linux e Nintendo Switch.
No Android, o game conta com controles virtuais na tela e também aceita gamepads físicos. Há ainda suporte a widescreen real em 16:9, modo clássico em 3:4 e alternância entre 15 e 30 FPS.
Uma das novidades desta versão é uma tradução completa para português brasileiro, cobrindo menus, itens, missões, habilidades e diálogos.
O sistema de cloud save também permite sincronizar o progresso entre diferentes dispositivos.
O projeto inclui até opções extras que não faziam parte do jogo original, como um menu de desenvolvedor com recursos como modo Deus, SP infinito e remoção de cooldown das habilidades.
Projeto: Heroes Lore 2: The Knight of Frozen Sea no GitHub.
Heroes Lore Zero completa a trilogia

O terceiro projeto é dedicado a Heroes Lore: Zero, outro RPG da Electronic Arts e Hands-On Mobile lançado originalmente para celulares.
A versão utilizada como base pelo projeto é a edição de maior resolução lançada para aparelhos Nokia com Symbian e suporte a J2ME.
Assim como nos outros dois jogos, o objetivo é preservar a lógica original e ao mesmo tempo adaptar a experiência para aparelhos atuais.
No Android, Heroes Lore Zero ganhou controles touchscreen, suporte a controles físicos e APKs próprios para diferentes arquiteturas.
O port também oferece widescreen em 16:9, alternância entre 15 e 30 FPS, tradução completa para português brasileiro, áudio MIDI reproduzido por um sintetizador integrado e sincronização de saves pelo Google Drive.
Também existem versões para Windows, Linux e Steam Deck e Nintendo Switch.
Projeto: Heroes Lore: Zero no GitHub.
Recompilação ou emulação?
Apesar de os projetos utilizarem o termo “recompilação nativa”, tecnicamente a solução é um pouco diferente de projetos de recompilação estática que transformam diretamente todo o código de um jogo antigo em código ARM64 ou x86-64.
No caso desses ports de Heroes Lore, existe um motor em C++ desenvolvido especificamente para interpretar e executar o bytecode original dos jogos, além de implementar as APIs necessárias do antigo ambiente J2ME.
É uma abordagem muito mais específica do que utilizar um emulador Java genérico: o ambiente foi criado ao redor desses jogos e integrado diretamente a recursos modernos como SDL2, controles, touchscreen, áudio e armazenamento.
Para o jogador, entretanto, a diferença mais importante é simples: em vez de abrir um emulador, selecionar um arquivo JAR e configurar controles, é possível instalar uma versão própria do jogo preparada para o sistema atual.
Preservação de uma era esquecida dos jogos mobile
A iniciativa chama atenção principalmente pela preservação de uma época dos jogos para celular que costuma receber muito menos atenção do que consoles antigos.
Antes de Android e iOS dominarem o mercado, jogos J2ME movimentaram uma enorme indústria em aparelhos da Nokia, Sony Ericsson, Motorola e Samsung.
Heroes Lore foi um dos RPGs que mais se destacaram nesse período, trazendo mapas relativamente grandes, combate em tempo real, evolução de personagens, equipamentos e histórias bem mais elaboradas do que normalmente se esperava de um jogo de celular naquela época.
Com esses novos projetos, os três games podem ser jogados novamente em smartphones modernos, agora com controles touch, suporte a gamepads e várias melhorias de qualidade de vida.
Os projetos são independentes e estão disponíveis gratuitamente no GitHub. Os direitos sobre personagens, nomes, gráficos, músicas e demais conteúdos originais continuam pertencendo aos respectivos detentores da franquia.
Fonte: GitHub / David Kalil Braga.




