Os gráficos dos jogos mobile estão prestes a dar mais um salto importante. Durante o Snapdragon Summit 2026, a Qualcomm mostrou novas demonstrações de sua tecnologia Adreno Neural Fusion (ANF) funcionando em jogos pesados para celulares, incluindo Honkai: Star Rail e o aguardado Silver Palace.
Na prática, estamos começando a ver no Android algo cada vez mais parecido com aquilo que já acontece no PC com tecnologias de reconstrução de imagem e geração de quadros: em vez de obrigar a GPU do celular a renderizar absolutamente tudo na resolução e taxa de quadros finais, parte desse trabalho pode ser reconstruída através de inteligência artificial.
O resultado promete jogos com gráficos mais pesados, taxas de quadros maiores e, principalmente, menos trabalho para a GPU. Algo extremamente importante em smartphones, onde desempenho sempre esbarra em dois velhos inimigos: temperatura e bateria.
Dois exemplos chamaram bastante atenção nas demonstrações recentes. Honkai: Star Rail apareceu utilizando recursos de super-resolução por IA, enquanto Silver Palace foi mostrado no mobile com uma combinação ainda mais agressiva de tecnologias, incluindo Unreal Engine 5, Lumen e Adreno Neural Fusion.
O que é o Adreno Neural Fusion?

O Adreno Neural Fusion é uma nova tecnologia de renderização da Qualcomm que coloca recursos de inteligência artificial diretamente dentro do pipeline gráfico das GPUs Adreno.
Pense nele como um DLSS5 para mobile, mas esqueça a parte da polêmica, o foco aqui é reduzir drasticamente o consumo de bateria e entregar gráficos no máximo usando menos processamento.
O sistema possui dois recursos principais: AI Super Resolution e AI Frame Generation.
A super-resolução funciona permitindo que o jogo seja renderizado internamente em uma resolução menor. Depois, um modelo de inteligência artificial utiliza informações de diferentes frames, profundidade e vetores de movimento para reconstruir uma imagem final em resolução maior.
Já o Frame Generation utiliza dois quadros realmente renderizados pelo jogo para criar através de IA um novo quadro intermediário.
Segundo a documentação técnica divulgada pela própria Qualcomm, um jogo utilizando simultaneamente os dois recursos pode renderizar internamente em metade da resolução e produzir apenas metade dos frames reais, enquanto entrega ao jogador uma imagem em resolução completa e com o dobro da taxa de quadros apresentada na tela.
Traduzindo para o português claro: a GPU trabalha menos, enquanto a IA tenta preencher parte do trabalho que ficou faltando.
SILVER PALACE MOBILE JUST GOT WAY MORE INTERESTING 👀📱🔥
We finally got actual Silver Palace mobile footage, and this is not just random reposted PC gameplay.
At the Snapdragon Summit, Silver Palace was shown running on mobile with:
✅ UE5 Lumen
✅ Real time global… pic.twitter.com/FneOfevnGV— FroGGy🐸 (@FroGGyNTE) September 24, 2026
Isso é tipo um DLSS para celular?
A comparação é inevitável.
Embora as tecnologias e implementações sejam diferentes, a ideia geral lembra bastante soluções encontradas atualmente no PC, como NVIDIA DLSS, AMD FSR e Intel XeSS.
Em vez de buscar qualidade gráfica e FPS apenas através de força bruta, o sistema utiliza reconstrução temporal e inteligência artificial para produzir a imagem final.
No caso da Qualcomm, a grande diferença está justamente na integração com o hardware dos smartphones Snapdragon.
As novas GPUs Adreno contam com hardware dedicado para operações de IA e memória de alta velocidade próxima ao próprio subsistema gráfico, evitando que uma grande quantidade de dados precise ficar viajando constantemente entre diferentes partes do processador.
Isso é especialmente importante em celulares porque consumir menos energia não significa apenas aumentar a duração da bateria.
Significa também gerar menos calor.
Honkai: Star Rail está entre os primeiros jogos preparados para a tecnologia
Honkai: Star Rail está entre os jogos apresentados com suporte às novas tecnologias gráficas da Qualcomm.
Durante as demonstrações do Snapdragon Summit, o RPG da HoYoverse foi mostrado utilizando AI Super Resolution para melhorar a resolução e preservar detalhes de personagens, cenários e efeitos visuais enquanto reduz o custo da renderização.
Esse é justamente o tipo de jogo onde a tecnologia pode fazer muita diferença.
Honkai: Star Rail possui ambientes detalhados, personagens com modelos complexos e batalhas com uma quantidade enorme de partículas, iluminação e efeitos especiais.
Fazer tudo isso rodar em alta resolução durante longos períodos normalmente significa colocar a GPU do smartphone trabalhando próxima do seu limite.
E aí acontece aquilo que todo jogador mobile conhece.
Nos primeiros minutos o jogo está bonito e rodando liso. Depois o celular esquenta, o sistema reduz os clocks para controlar a temperatura e os frames começam a cair.
A promessa da Qualcomm é justamente diminuir esse problema reduzindo a quantidade de pixels que realmente precisam ser renderizados pela GPU.
Silver Palace é ainda mais impressionante
Mas talvez a demonstração mais interessante seja Silver Palace.
O RPG de mundo aberto da Elementa está sendo desenvolvido na Unreal Engine 5 e apareceu durante o Snapdragon Summit rodando em uma versão mobile com tecnologias que até pouco tempo atrás pareciam absurdas para um celular.
A demonstração apresentou suporte a Lumen no mobile, com iluminação global em tempo real, reflexos e sombras dinâmicas, combinados com o Adreno Neural Fusion.
O Lumen é um dos principais sistemas de iluminação da Unreal Engine 5 e permite que a luz se comporte de maneira muito mais dinâmica nos cenários.
Em Silver Palace isso é especialmente interessante por causa da própria direção artística do jogo.
O título possui uma enorme cidade com estética vitoriana, ruas molhadas, edifícios detalhados, iluminação artificial, interiores, exteriores e diferentes fontes de luz.
Em uma demonstração técnica, o jogo apresentou Lumen e ANF funcionando em conjunto no mobile, incluindo geração de quadros por IA para aumentar a fluidez da imagem.
Silver Palace vai realmente rodar assim no seu celular?
Aqui entra uma ressalva importante.
As demonstrações apresentadas durante o evento foram produzidas em ambiente de desenvolvimento e laboratório. Isso significa que ainda não devemos olhar para esses vídeos como uma representação definitiva de como Silver Palace vai funcionar no celular que estará na sua mão.
E a própria Elementa parece bastante consciente desse desafio.
A desenvolvedora acaba de anunciar o Dichotomy: Retrace Technical Test, um novo teste técnico de Silver Palace que incluirá pela primeira vez versões para Android e iOS, além do PC.
O foco dessa etapa será justamente avaliar compatibilidade, desempenho e qualidade visual em diferentes dispositivos.
E a empresa já avisou antecipadamente que os participantes poderão encontrar aquecimento do aparelho, quedas de FPS e stuttering.
Ou seja, aquela demonstração absurda vista no Snapdragon Summit mostra onde a Elementa quer chegar. Agora começa a parte difícil: fazer isso funcionar de maneira estável em smartphones de verdade.
O novo teste de Silver Palace faz muito mais sentido agora
Depois dessas demonstrações, fica mais fácil entender por que a desenvolvedora está tratando o próximo teste como uma etapa especificamente técnica.
Silver Palace não está simplesmente tentando colocar um jogo de PC no celular diminuindo resolução, sombras e distância de visão.
A equipe aparentemente está tentando preservar algumas das principais tecnologias visuais da versão feita em Unreal Engine 5 também no mobile.
Isso naturalmente aumenta bastante a dificuldade de otimização.
O teste Dichotomy: Retrace utiliza uma versão do jogo otimizada para desempenho e terá conteúdo muito parecido com o beta anterior realizado no PC.
As inscrições ficam abertas até 10 de outubro de 2026. O teste será limitado, terá os dados apagados posteriormente e os participantes selecionados precisarão aceitar um acordo de confidencialidade.
A Elementa ainda não informou quando os servidores desse teste serão abertos.
Frame Generation não significa que todos os frames são realmente renderizados
🔥 HONKAI: STAR RAIL IS JOINING THE NEXT GENERATION OF MOBILE GAMING
Qualcomm has officially confirmed Honkai: Star Rail as 1 of the games supporting its new Adreno Neural Fusion technology. 👀📱
ANF brings AI directly into the mobile graphics pipeline with:
✅ AI Super… pic.twitter.com/lxbu20Tmnm
— FroGGy🐸 (@FroGGyNTE) September 24, 2026
Pareceu tudo igual pra você? A ideia é essa mesma!
O lance do AI Frame Generation é entregar quadros sem precisar que a GPU renderize tudo.
A tecnologia da Qualcomm utiliza dois frames consecutivos e informações de profundidade e movimento para estimar como deveria ser o quadro existente entre eles.
Esse novo frame é então gerado artificialmente.
A vantagem é conseguir uma sensação de movimento muito mais suave sem dobrar o custo de renderização.
Por outro lado, existe uma diferença entre FPS realmente renderizado e FPS percebido.
A própria documentação da Qualcomm explica que a geração de frames adiciona aproximadamente o equivalente a um frame renderizado de latência de entrada.
Por isso, a tecnologia faz muito sentido em RPGs, aventuras e grandes mundos abertos, mas não deve ser confundida com simplesmente dobrar o desempenho bruto da GPU.
O verdadeiro ganho pode ser reduzir aquecimento
Curiosamente, aumentar o número mostrado no contador de FPS talvez nem seja a parte mais importante do Adreno Neural Fusion.
Para jogos mobile, o grande ganho pode estar na eficiência energética.
Quando um jogo é renderizado internamente em resolução menor, a GPU precisa calcular muito menos pixels.
Isso reduz o trabalho de shading, o tráfego de memória e o consumo energético.
Menor consumo significa menos calor acumulado e, consequentemente, menor chance de o smartphone reduzir sua frequência depois de alguns minutos para evitar superaquecimento.
A Qualcomm afirma que essa abordagem pode ajudar a manter clocks mais altos durante sessões prolongadas.
É justamente aquilo que os jogadores realmente querem: não apenas ver um benchmark rodando a 60 FPS durante cinco minutos, mas conseguir jogar durante meia hora ou uma hora sem assistir ao desempenho desabar.
Não é só Honkai: Star Rail e Silver Palace
A Qualcomm já está trabalhando com diversos estúdios para levar suas novas tecnologias gráficas aos jogos.
Honkai: Star Rail aparece entre os títulos confirmados para utilizar o novo ecossistema de renderização por IA, ao lado de jogos como Diablo Immortal, War Thunder Mobile, Arena Breakout, Farming Simulator 26 e Monster Hunter Outlanders.
Outro projeto que merece atenção é Neverness to Everness (NTE).
A própria documentação para desenvolvedores da Qualcomm utiliza o RPG de mundo aberto da Hotta Studio como exemplo do Adreno Neural Fusion.
Outras demonstrações realizadas durante o Snapdragon Summit também incluíram jogos como Roco Kingdom: World.
Ou seja, não estamos falando apenas de uma demonstração isolada criada para apresentar um novo processador.
Existe um movimento claro entre fabricantes de chips, engines e desenvolvedoras para começar a utilizar técnicas de reconstrução por IA como parte normal da renderização dos futuros jogos mobile.
Os celulares não precisam mais renderizar tudo na força bruta
Talvez essa seja a mudança mais interessante de todas.
Durante muitos anos, a evolução gráfica no mobile basicamente dependia de colocar GPUs cada vez mais poderosas dentro dos smartphones.
Mas existe um limite físico bastante óbvio para isso.
Um celular não possui uma fonte de 800 watts, uma placa de vídeo enorme e três ventoinhas jogando o calor para fora.
Se os jogos mobile querem continuar se aproximando visualmente dos títulos de PC e consoles, simplesmente aumentar a potência não será suficiente.
Tecnologias como o Adreno Neural Fusion mostram um caminho diferente: renderizar menos, reconstruir melhor e utilizar inteligência artificial para aproveitar de maneira mais eficiente cada watt disponível.
Honkai: Star Rail e Silver Palace são alguns dos primeiros exemplos dessa mudança.
E Silver Palace talvez seja o caso mais interessante para acompanhar nos próximos meses. Uma coisa é mostrar Lumen, iluminação global e geração de frames em um smartphone preparado para uma demonstração.
Outra completamente diferente será colocar tudo isso na mão de milhares de jogadores durante um teste mobile.
É aí que vamos descobrir até onde essa nova geração de gráficos para Android e iOS realmente consegue chegar.







